Études. Notas. Telegramas, instantâneos, bilhetinhos expedidos em sala de aula. Aspectos, vulgaridades. Estados brutos. Crônicas, depoimentos, ficções de estar-no-mundo e mais desse delicioso atoleiro pós-mô. É chafurdar, meu bem, é chafurdar. Disso nós manjamos. Aliás, nós somos: Ismar Tirelli Neto e Alice Sant´Anna. A banca forjou-se durante reunião em casa de Ismar. Era dia de semana, de modo que estavam todos sóbrios. Isso confere uma intencionalidade gravíssima ao projeto. É bom. É bom que seja grave. A propósito do projeto: é assim: repartir nossas coisas com o mundo. E as coisas dos convidados que se dignarem a colaborar. Uma premissa simples, certo ? Certo. Então, um dois três e.


Quinta-feira, Julho 13, 2006

 

Dias de Snooker no Caiçaras:

Querido,

pra me dizer basta uma costura solta, uma bainha mal-feita ( emenda pior que soneto ). Hoje desço o martelo sobre essa beira de piscina, pespontada de luzes azuis e esverdeadas. O que semelha princípio de febre é só a vida tentando outro sendeiro. Sabes, ando empenhado no inventário das boas coisas, catalogando miudezas que me alegrem, a fossa foi certeira demais e ai, tanto de dores ( não só minhas ) acamadas à meia-luz do quarto, houve que reencontrar algum sorriso, nem que à força, nem que à força de dolorosa revisão das possibilidades da mocidade, pois que somos gente jovem, posto que é-se jovem vez só uma de uma única vida, forçoso não confundir o amargo com o doce.

tenho uma saudade danada dos meus tempos de menino, por mais que faça por nada me faltar, vontade de tempo exato. Se me reconhecesse, ao menos. Fiz pouco da felicidade desses tempos, essa saudade é nuclearmente vendeta, a memória que rasga os próprios pulsos. Se zanzam os pequenos em torno da água, sinto ir-me a seiva do que já se abdicou, do que não resta, finalizou-se.

( tempo tempo tempo passaste passivo e quieto
como lhe empurrasse a Natureza
sem vestígio de organicidade
sem espinha, sem sobejo,
só sombras, deglutimo-la inteira
fantástica confecção submarina sonhada sabe-se lá por que motivo )

a noite cerra o cortinado da inocência e, ainda à beira da piscina, deixo a vista repousar sobre o corpo de algum nadador, o corpo exato de algum nadador, um repuxo e sorrio, sem contenção, pra que contenção, pra que fingir que não vejo se gosto tanto quando a visão me toma, me acomete como um súbito capricho intransigente ou iluminação de hora última, untada de extremos ? Aqui sou iluminado a toque de caixa. Faz verão durante o dia, anoitece inverno, tempo tempo tempo rolaste pela vida como aliterado, refizeste a vida tão sutil e ¿ caso de se pensar ¿ inútil.

todo esse aparato, todo esse aparelho, toda essa repulsa, todo esse enjôo ¿ a gama de cinzas que, para bem ou para mal, a gente não usa deferir.

bem, onde as alegrias simples, que não se permitem atomizar ? Automatizar ? Autorizar, posto que vêm descaradas, a elas indiferem nossos desígnios.

( desejo-te contente
e esquecido ritualizado
posto à prova posto pra fora
escurraçado limpo de mim
humilhado de mim mas contente, toujours content )

aqui não é a vida estupenda, mas tem-se Coca-Cola, assobios, snooker, tênis de mesa, arquitetura Bauhaus, a vista da Lagoa, um cachorro-quente de parar o trânsito, o Cristo sincopado acima cantarolando uma antiga do João Gilberto, nada demais. Estou feliz, de todo modo, quiçá até mesmo otimista, alguns de nós teimam em fitar as estrelas. Pois, querido, toma cá minha bênção, dá lá para o mundo, que torne a girar, que torne a valsar, a gala do espaço impensável. Venho por meio desta participar-lhe que está tudo oquêi, você inclusive.

Seu, sem o menor respeito,
-- I.




4:33 AM
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Sábado, Julho 01, 2006

 

Sem Título:

Sabe
eu não sou lá uma pessoa de certezas
mas tem alguma coisa por trás
desses olhos
que
me
aflige.
A minha vontade eu te conto
é de te sufocar
num abraço de cobra que se enrola no corpo da presa e não solta nem hoje nem amanhã
nem nunca
mais.


-- Alice Sant'Anna




11:42 AM
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