
Études. Notas. Telegramas, instantâneos, bilhetinhos expedidos em sala de aula. Aspectos, vulgaridades. Estados brutos. Crônicas, depoimentos, ficções de estar-no-mundo e mais desse delicioso atoleiro pós-mô. É chafurdar, meu bem, é chafurdar. Disso nós manjamos. Aliás, nós somos: Ismar Tirelli Neto e Alice Sant´anna. A banca forjou-se durante reunião em casa de Ismar. Era dia de semana, de modo que estavam todos sóbrios. Isso confere uma intencionalidade gravíssima ao projeto. É bom. É bom que seja grave. A propósito do projeto: é assim: repartir nossas coisas com o mundo. E as coisas dos convidados que se dignarem a colaborar. Uma premissa simples, certo ? Certo. Então, um dois três e.
Quarto 903:
¿O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la¿.
( Murilo Mendes, de ¿O Discípulo de Emaús¿ )
Paisagem:
cinza-grafite pontilhado de escoriações. Retas, ângulos ( tudo se angula ). Sensação de recorte.
Quarto 903.
Penso em amigos artistas plásticos. Telefonar-lhes, quem sabe. Que efeito, que ilusão de óptica ? O que é isso ?
Diversos terraços justapostos, entre os quais se abrem intervalos espaciais denotativos de alguma imensidão. Diversos graus do imenso.
É outono ¿ o entardecer é sumário e algo metálico. Longe de um possível borbulho de ondas, copas de árvore: um ponto onde os elementos fraquejam. Nem mesmo o vento. Não me faz bem.
Tenho uma visão de Maurício nu, montado sobre o parapeito:
Gritando
PUTA QUE O PARIU.
Uma súbita agudeza de percepção, vida una como nevralgia, e berra-se ¿ muito naturalmente ¿ algum impropério da janela do apartamento. Há um instante de silêncio, inexato. Outro sentimento toma o lugar da angústia; estupefação, poder-se-ia opinar. É pesado, é bonito. A dor esmaece e o mundo retoma seu lugar no mundo. Maurício desce do parapeito, os olhos bondosos voltam-se para o interior da peça. Escassamente mobiliada, concisa. Todo ele contido entre quatro paredes. Exatíssimas.
É a sobrevida plástica da cena que me comove tanto. Nós, sentados a uma mesa de bar. Maurício desfecha anedotas do eu profundo. Ri largamente enquanto lavra em mim a impressão de sua nudez desnorteada, carregada de maldições, anátemas, queixas seculares, prestes a ganhar milhas abaixo o asfalto úmido ( minha impressão também é de outono, mera coincidência ).
Penso: Maurício, por que não ? Mas a questão é outra. Não pude acompanhar. Um lapso de atenção, um desvio. O objeto de reflexão é por demais abrangente. São todas as coisas ao mesmo tempo, não apenas seus termos. Mesquinha, essa minha fixação com os finais.
Sinto-me irmanado a ele pelas circunstâncias. Uma estranha calma continua o grito, um elemento a mais embaralhado à realidade. O mundo se planifica e se acinzenta. Há solidão, por certo. Mas não deixa de haver paz.
Não faço outra coisa que não observar. Meu pai, à frente, recosta-se no divã, os jornais do dia amarfanhados sobre o peito. O silêncio prospecta, cada vez mais fundo ¿ não sei se é mera expressão de cansaço, mas ele larga as rédeas da hora, que mudança. A noite chega encorpada e profunda. Começo a afagar a manta que me cobre da cintura para baixo; apego-me à textura, íntimo. Natural, como silêncio. Meu pai se ajeita no divã, segue respirando. O grito já incorporado à banda sonora da cidade.
Outra informação que colho da imagem de Maurício nu sobre o parapeito ( agora visto de fora, como se eu planasse bem defronte, elementar ): liberdade. A própria, tão-romântica efígie da liberdade. Que não se consome. Reconhece-se; reconhece a cidade, gira sobre os calcanhares e retorna, apaziguada. À força dessa imagem, apaziguo-me também. Fico íntimo da imagem.
Cochilo. Pouco tempo depois sou acordado por bombas. Pega-se em armas na tevê. Meu pai observa, meu pai de rosto sério, beira a incredulidade. Absurdo. Que a vida tenha se tornado parte tão ínfima de viver. Por longo tempo sigo observando, ele torna a dominar o tempo. Dado momento volta a cabeça como que assustado e me surpreende. Pergunta se me sinto bem. Um pouco de frio, apenas. Ato contínuo, meu pai se levanta e dirige-se ao guarda-roupa. Busca outra manta e me cobre uma segunda vez. Espalma a mão sobre minha testa, acha-me um tanto febril. Pouco depois, uma enfermeira de crachá Elizabeth aplica-me outra injeção, algo dolorosa. Torno a cochilar.
Estou no quarto 903, estou com meu pai.
Por disparatado que possa parecer, é com Maurício que sonho essa noite. A fantasiosa nudez de Maurício pilhada à janela de seu apartamento, alocada sob meu corpo, sob minha febre. Ele urra
PUTA QUE O PARIU
é verdade que temos nas mãos a exata medida de nossa selvageria. Não há engano, absolutamente. Nesse berro, qualquer coisa do espírito liberto e desesperado de um homem nu sobre o parapeito. Aquele puro grito de existência reinventa-se inteiramente em seu gozo comigo. Toma sobre si um novo significado, algo de outro.
Manhã seguinte, o repente de morbidez da noite anterior parece-me infantil e despropositado. Adoto como medida autopunitiva uma tentativa de diálogo com minha irmã mais velha, Carolina. Funciona que é uma maravilha.
-- Ismar Tirelli Neto
12:32 PM
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