
Études. Notas. Telegramas, instantâneos, bilhetinhos expedidos em sala de aula. Aspectos, vulgaridades. Estados brutos. Crônicas, depoimentos, ficções de estar-no-mundo e mais desse delicioso atoleiro pós-mô. É chafurdar, meu bem, é chafurdar. Disso nós manjamos. Aliás, nós somos: Ismar Tirelli Neto e Alice Sant´anna. A banca forjou-se durante reunião em casa de Ismar. Era dia de semana, de modo que estavam todos sóbrios. Isso confere uma intencionalidade gravíssima ao projeto. É bom. É bom que seja grave. A propósito do projeto: é assim: repartir nossas coisas com o mundo. E as coisas dos convidados que se dignarem a colaborar. Uma premissa simples, certo ? Certo. Então, um dois três e.
Um conto pra você ismar:
Das coisas que tenho medo: escuro e magoar Ismar.
Eu ainda tinha dentes de leite quando fomos apresentados. Não estou exagerando. Ismar, quando aparecia aqui em casa, falava em livros e música e cinema e mais um vasto repertório, aparentando no mínimo trinta anos. Talvez fossem os cabelos, ou o colete de francês em plena Nouvelle Vague: o fato é que Ismar era sinônimo de evento. De escolher tópicos e saia de bolinhas, só pra ver a sua barba se abrindo em sorriso de aprovação.
Cantando de braços dados uma marchinha de carnaval, hoje, percebo como é difícil mudar essa impressão. É que a sua presença não é dessas discretas, camufladas, num canto de sala. Ismar que diz: atente para isso ! e me mostra músicas cheias de violinos e outros instrumentos que só ele é capaz de inventar, num movimento de mãos, olhos e dentes.
A sua arquitetura é para ser estudada. De camisa listrada - ele cabe no seu corpo ? Sentado na cama, à meia-luz do abajur, as paredes com fotografias de filmes em preto e branco e citações de Bandeira a Sartre, Ismar às vezes é só fumaça de cigarro, pairando pelo quarto. Nos tênis, ele escreveu com caligrafia antiga: um gênio, no esquerdo, ou uma besta ?, no direito.
Os anjos tortos são sempre mais espertos, e preferem o gauche. Ismar que descarta uma cidade inteira com um levantar de sobrancelhas -- porque o que é feio e de mau gosto, ah que ele comenta ! Mas também, e principalmente, aquele que vibra, que não se contém num solo de trompete ou numa palavra bonita. Num observar de detalhes que parece que engole a gente, porque o menino é, acima de tudo, poeta.
A verdade é que Ismar não existe. É verbo na primeira conjugação, é criação da própria criatura, é personagem tão rico que expande os limites e dá inveja para os outros contadores de história.
-- Alice Sant´Anna
3:29 PM
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Ismarograma Por Alice Sant´Anna:
"ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece"
( Paulo Leminski )
I.
Mas é que pra ela quase tudo é transe. Raro é estar toda no momento, convergida num instante preciso -- mas também, que desperdício.
Não sopra que ela alça vôo. Branco por branco, Alice passa sem ossos, constitui-se, ao invés, de plumas. Prescinde igualmente de sorriso. Isso que volta e meia acende em seu rosto é o ultrasorriso; feito caixinha de música, os dentes dão as caras e de lugar algum nos chega uma marchinha de Carnaval.
II.
Como que adoçando o silêncio, deixa escapar num fiapo de voz: que gente longe viva na lembrança, que gente triste possa entrar na dança, que gente grande saiba ser criança. Criança, tanta coisa compactada nessa forma mínima, estreita, quantos-anos-você-disse ? Meu parecer: Alice tem os anos que Alice quiser. É sabido, poeta é coisa sem tempo. Tomem-se por exemplo as mulheres de Alice: todas engastadas numa madureza explosiva, incontinente. Fêmeas totêmicas, meneando fixações manchadas de batom pelas ruas da cidade, saltos penetrando fendas entre pedras portuguesas, unhas feitas de zelo oriental. Se não Alice, quem são ? Sintomas da pequena, espatifada em palavras. Conseqüentemente feita gigante.
III.
Alice-presença é discreta, ferozmente estética. Lembra o gato, profundo conhecedor das coordenadas do apartamento que mais lhe favorecem. Tem o dom do branco, do vermelho e do azul; tons objetivos, mas nada que urre. O vestido ela viu num filme antigo e copiou o modelo. Mia Farrow, Twiggy, Nara Leão. Deixa escapar num fiapo de voz: com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto. Qualquer coisa de expectante na articulação das palavras, que a minha voz -- grossa, um tanto desajeitada -- não resiste, vai atrás -- pra você parar em casa. Alice sempre propondo duetos, até quando não quer. Admoesta com cafunés, protesta em risadinhas nervosas. Alice que não fala palavrão.
IV.
Alice horrorizada ao ver um sujeito carregando uma moça à força República do Peru adentro. Quase retorno: Carnaval tem dessas coisas. Que é quase dizer: calma que o mundo é mau. Um cordão humano em torno de Alice tentando rebater a maldade, sabe-se inútil, sabe-se inevitável. Toda a gente quer ter asas pra toldar Alice.
V.
Braço eu tenho, ela também.
Pra pedir emprestado enquanto se desce o Humaitá, a caminho do ponto de ônibus ( tradicionalmente, aquele situado frente aos Correios ). Dama e vagabundo, confundindo as estrofes de Noite dos Mascarados. Não me diga, mas quem somos nós ?
Em certos retratos aqui estocados, Alice sentada fitando o chão: parece uma fadinha enfadada.
-- Ismar Tirelli Neto
5:32 AM
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