
Études. Notas. Telegramas, instantâneos, bilhetinhos expedidos em sala de aula. Aspectos, vulgaridades. Estados brutos. Crônicas, depoimentos, ficções de estar-no-mundo e mais desse delicioso atoleiro pós-mô. É chafurdar, meu bem, é chafurdar. Disso nós manjamos. Aliás, nós somos: Ismar Tirelli Neto e Alice Sant´Anna. A banca forjou-se durante reunião em casa de Ismar. Era dia de semana, de modo que estavam todos sóbrios. Isso confere uma intencionalidade gravíssima ao projeto. É bom. É bom que seja grave. A propósito do projeto: é assim: repartir nossas coisas com o mundo. E as coisas dos convidados que se dignarem a colaborar. Uma premissa simples, certo ? Certo. Então, um dois três e.
Sem Título II:
ele me dá vontade de
cama elástica
piruetas no corredor
de corpo que não cabe
nos limites
metade super-mulher
contorcionista
que se fragmenta
em mil, metade
palhaço atrapalhado
que o público acha
graça e aplaude
de pé, ele
dá vontade de circo.
-- Alice Sant´Anna
2:44 PM
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Dias de Snooker no Caiçaras:
Querido,
pra me dizer basta uma costura solta, uma bainha mal-feita ( emenda pior que soneto ). Hoje desço o martelo sobre essa beira de piscina, pespontada de luzes azuis e esverdeadas. O que semelha princípio de febre é só a vida tentando outro sendeiro. Sabes, ando empenhado no inventário das boas coisas, catalogando miudezas que me alegrem, a fossa foi certeira demais e ai, tanto de dores ( não só minhas ) acamadas à meia-luz do quarto, houve que reencontrar algum sorriso, nem que à força, nem que à força de dolorosa revisão das possibilidades da mocidade, pois que somos gente jovem, posto que é-se jovem vez só uma de uma única vida, forçoso não confundir o amargo com o doce.
tenho uma saudade danada dos meus tempos de menino, por mais que faça por nada me faltar, vontade de tempo exato. Se me reconhecesse, ao menos. Fiz pouco da felicidade desses tempos, essa saudade é nuclearmente vendeta, a memória que rasga os próprios pulsos. Se zanzam os pequenos em torno da água, sinto ir-me a seiva do que já se abdicou, do que não resta, finalizou-se.
( tempo tempo tempo passaste passivo e quieto
como lhe empurrasse a Natureza
sem vestígio de organicidade
sem espinha, sem sobejo,
só sombras, deglutimo-la inteira
fantástica confecção submarina sonhada sabe-se lá por que motivo )
a noite cerra o cortinado da inocência e, ainda à beira da piscina, deixo a vista repousar sobre o corpo de algum nadador, o corpo exato de algum nadador, um repuxo e sorrio, sem contenção, pra que contenção, pra que fingir que não vejo se gosto tanto quando a visão me toma, me acomete como um súbito capricho intransigente ou iluminação de hora última, untada de extremos ? Aqui sou iluminado a toque de caixa. Faz verão durante o dia, anoitece inverno, tempo tempo tempo rolaste pela vida como aliterado, refizeste a vida tão sutil e -- caso de se pensar -- inútil.
todo esse aparato, todo esse aparelho, toda essa repulsa, todo esse enjôo -- a gama de cinzas que, para bem ou para mal, a gente não usa deferir.
bem, onde as alegrias simples, que não se permitem atomizar ? Automatizar ? Autorizar, posto que vêm descaradas, a elas indiferem nossos desígnios.
( desejo-te contente
e esquecido ritualizado
posto à prova posto pra fora
escurraçado limpo de mim
humilhado de mim mas contente, toujours content )
aqui não é a vida estupenda, mas tem-se Coca-Cola, assobios, snooker, tênis de mesa, arquitetura Bauhaus, a vista da Lagoa, um cachorro-quente de parar o trânsito, o Cristo sincopado acima cantarolando uma antiga do João Gilberto, nada demais. Estou feliz, de todo modo, quiçá até mesmo otimista, alguns de nós teimam em fitar as estrelas. Pois, querido, toma cá minha bênção, dá lá para o mundo, que torne a girar, que torne a valsar, a gala do espaço impensável. Venho por meio desta participar-lhe que está tudo oquêi, você inclusive.
Seu, sem o menor respeito,
I.
-- Ismar Tirelli Neto
4:33 AM
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Sem Título:
Sabe
eu não sou lá uma pessoa de certezas
mas tem alguma coisa por trás
desses olhos
que
me
aflige.
A minha vontade eu te conto
é de te sufocar
num abraço de cobra que se enrola no corpo da presa e não solta nem hoje nem amanhã
nem nunca
mais.
-- Alice Sant'Anna
11:42 AM
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Quarto 903:
"O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la".
( Murilo Mendes, de "O Discípulo de Emaús" )
Paisagem:
cinza-grafite pontilhado de escoriações. Retas, ângulos ( tudo se angula ). Sensação de recorte.
Quarto 903.
Penso em amigos artistas plásticos. Telefonar-lhes, quem sabe. Que efeito, que ilusão de óptica ? O que é isso ?
Diversos terraços justapostos, entre os quais se abrem intervalos espaciais denotativos de alguma imensidão. Diversos graus do imenso.
É outono -- o entardecer é sumário e algo metálico. Longe de um possível borbulho de ondas, copas de árvore: um ponto onde os elementos fraquejam. Nem mesmo o vento. Não me faz bem.
Tenho uma visão de Maurício nu, montado sobre o parapeito:
Gritando
PUTA QUE O PARIU.
Uma súbita agudeza de percepção, vida una como nevralgia, e berra-se -- muito naturalmente -- algum impropério da janela do apartamento. Há um instante de silêncio, inexato. Outro sentimento toma o lugar da angústia; estupefação, poder-se-ia opinar. É pesado, é bonito. A dor esmaece e o mundo retoma seu lugar no mundo. Maurício desce do parapeito, os olhos bondosos voltam-se para o interior da peça. Escassamente mobiliada, concisa. Todo ele contido entre quatro paredes. Exatíssimas.
É a sobrevida plástica da cena que me comove tanto. Nós, sentados a uma mesa de bar. Maurício desfecha anedotas do eu profundo. Ri largamente enquanto lavra em mim a impressão de sua nudez desnorteada, carregada de maldições, anátemas, queixas seculares, prestes a ganhar milhas abaixo o asfalto úmido ( minha impressão também é de outono, mera coincidência ).
Penso: Maurício, por que não ? Mas a questão é outra. Não pude acompanhar. Um lapso de atenção, um desvio. O objeto de reflexão é por demais abrangente. São todas as coisas ao mesmo tempo, não apenas seus termos. Mesquinha, essa minha fixação com os finais.
Sinto-me irmanado a ele pelas circunstâncias. Uma estranha calma continua o grito, um elemento a mais embaralhado à realidade. O mundo se planifica e se acinzenta. Há solidão, por certo. Mas não deixa de haver paz.
Não faço outra coisa que não observar. Meu pai, à frente, recosta-se no divã, os jornais do dia amarfanhados sobre o peito. O silêncio prospecta, cada vez mais fundo -- não sei se é mera expressão de cansaço, mas ele larga as rédeas da hora, que mudança. A noite chega encorpada e profunda. Começo a afagar a manta que me cobre da cintura para baixo; apego-me à textura, íntimo. Natural, como silêncio. Meu pai se ajeita no divã, segue respirando. O grito já incorporado à banda sonora da cidade.
Outra informação que colho da imagem de Maurício nu sobre o parapeito ( agora visto de fora, como se eu planasse bem defronte, elementar ): liberdade. A própria, tão-romântica efígie da liberdade. Que não se consome. Reconhece-se; reconhece a cidade, gira sobre os calcanhares e retorna, apaziguada. À força dessa imagem, apaziguo-me também. Fico íntimo da imagem.
Cochilo. Pouco tempo depois sou acordado por bombas. Pega-se em armas na tevê. Meu pai observa, meu pai de rosto sério, beira a incredulidade. Absurdo. Que a vida tenha se tornado parte tão ínfima de viver. Por longo tempo sigo observando, ele torna a dominar o tempo. Dado momento volta a cabeça como que assustado e me surpreende. Pergunta se me sinto bem. Um pouco de frio, apenas. Ato contínuo, meu pai se levanta e dirige-se ao guarda-roupa. Busca outra manta e me cobre uma segunda vez. Espalma a mão sobre minha testa, acha-me um tanto febril. Pouco depois, uma enfermeira de crachá Elizabeth aplica-me outra injeção, algo dolorosa. Torno a cochilar.
Estou no quarto 903, estou com meu pai.
Por disparatado que possa parecer, é com Maurício que sonho essa noite. A fantasiosa nudez de Maurício pilhada à janela de seu apartamento, alocada sob meu corpo, sob minha febre. Ele urra
PUTA QUE O PARIU
é verdade que temos nas mãos a exata medida de nossa selvageria. Não há engano, absolutamente. Nesse berro, qualquer coisa do espírito liberto e desesperado de um homem nu sobre o parapeito. Aquele puro grito de existência reinventa-se inteiramente em seu gozo comigo. Toma sobre si um novo significado, algo de outro.
Manhã seguinte, o repente de morbidez da noite anterior parece-me infantil e despropositado. Adoto como medida autopunitiva uma tentativa de diálogo com minha irmã mais velha, Carolina. Funciona que é uma maravilha.
-- Ismar Tirelli Neto
12:32 PM
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Um conto pra você ismar:
Das coisas que tenho medo: escuro e magoar Ismar.
Eu ainda tinha dentes de leite quando fomos apresentados. Não estou exagerando. Ismar, quando aparecia aqui em casa, falava em livros e música e cinema e mais um vasto repertório, aparentando no mínimo trinta anos. Talvez fossem os cabelos, ou o colete de francês em plena Nouvelle Vague: o fato é que Ismar era sinônimo de evento. De escolher tópicos e saia de bolinhas, só pra ver a sua barba se abrindo em sorriso de aprovação.
Cantando de braços dados uma marchinha de carnaval, hoje, percebo como é difícil mudar essa impressão. É que a sua presença não é dessas discretas, camufladas, num canto de sala. Ismar que diz: atente para isso ! e me mostra músicas cheias de violinos e outros instrumentos que só ele é capaz de inventar, num movimento de mãos, olhos e dentes.
A sua arquitetura é para ser estudada. De camisa listrada - ele cabe no seu corpo ? Sentado na cama, à meia-luz do abajur, as paredes com fotografias de filmes em preto e branco e citações de Bandeira a Sartre, Ismar às vezes é só fumaça de cigarro, pairando pelo quarto. Nos tênis, ele escreveu com caligrafia antiga: um gênio, no esquerdo, ou uma besta ?, no direito.
Os anjos tortos são sempre mais espertos, e preferem o gauche. Ismar que descarta uma cidade inteira com um levantar de sobrancelhas -- porque o que é feio e de mau gosto, ah que ele comenta ! Mas também, e principalmente, aquele que vibra, que não se contém num solo de trompete ou numa palavra bonita. Num observar de detalhes que parece que engole a gente, porque o menino é, acima de tudo, poeta.
A verdade é que Ismar não existe. É verbo na primeira conjugação, é criação da própria criatura, é personagem tão rico que expande os limites e dá inveja para os outros contadores de história.
-- Alice Sant´Anna
3:29 PM
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Ismarograma Por Alice Sant´Anna:
"ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece"
( Paulo Leminski )
I.
Mas é que pra ela quase tudo é transe. Raro é estar toda no momento, convergida num instante preciso -- mas também, que desperdício.
Não sopra que ela alça vôo. Branco por branco, Alice passa sem ossos, constitui-se, ao invés, de plumas. Prescinde igualmente de sorriso. Isso que volta e meia acende em seu rosto é o ultrasorriso; feito caixinha de música, os dentes dão as caras e de lugar algum nos chega uma marchinha de Carnaval.
II.
Como que adoçando o silêncio, deixa escapar num fiapo de voz: que gente longe viva na lembrança, que gente triste possa entrar na dança, que gente grande saiba ser criança. Criança, tanta coisa compactada nessa forma mínima, estreita, quantos-anos-você-disse ? Meu parecer: Alice tem os anos que Alice quiser. É sabido, poeta é coisa sem tempo. Tomem-se por exemplo as mulheres de Alice: todas engastadas numa madureza explosiva, incontinente. Fêmeas totêmicas, meneando fixações manchadas de batom pelas ruas da cidade, saltos penetrando fendas entre pedras portuguesas, unhas feitas de zelo oriental. Se não Alice, quem são ? Sintomas da pequena, espatifada em palavras. Conseqüentemente feita gigante.
III.
Alice-presença é discreta, ferozmente estética. Lembra o gato, profundo conhecedor das coordenadas do apartamento que mais lhe favorecem. Tem o dom do branco, do vermelho e do azul; tons objetivos, mas nada que urre. O vestido ela viu num filme antigo e copiou o modelo. Mia Farrow, Twiggy, Nara Leão. Deixa escapar num fiapo de voz: com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto. Qualquer coisa de expectante na articulação das palavras, que a minha voz -- grossa, um tanto desajeitada -- não resiste, vai atrás -- pra você parar em casa. Alice sempre propondo duetos, até quando não quer. Admoesta com cafunés, protesta em risadinhas nervosas. Alice que não fala palavrão.
IV.
Alice horrorizada ao ver um sujeito carregando uma moça à força República do Peru adentro. Quase retorno: Carnaval tem dessas coisas. Que é quase dizer: calma que o mundo é mau. Um cordão humano em torno de Alice tentando rebater a maldade, sabe-se inútil, sabe-se inevitável. Toda a gente quer ter asas pra toldar Alice.
V.
Braço eu tenho, ela também.
Pra pedir emprestado enquanto se desce o Humaitá, a caminho do ponto de ônibus ( tradicionalmente, aquele situado frente aos Correios ). Dama e vagabundo, confundindo as estrofes de Noite dos Mascarados. Não me diga, mas quem somos nós ?
Em certos retratos aqui estocados, Alice sentada fitando o chão: parece uma fadinha enfadada.
-- Ismar Tirelli Neto
5:32 AM
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